SOBRE O LIVRO "A GUERRA DOS BASTARDOS", DE ANA PAULA MAIA ---------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------- PERÍODO 2007/2008

Março de 2007 - Portal Literal.

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Quanto mais pulp melhor


Internet ganha hoje mais um folhetim. 'Barbudos cretinos e suas histórias canalha' traz de volta o estilo pulp da escritora carioca Ana Paula Maia.
Bruno Dorigatti 01 / 03 / 2007

"O último [pesadelo] foi que eu estava com o Edgar Wilson, matando junto com ele. Olhei pra minha mão, eu estava de mãos dadas com alguém e o Edgard na minha frente, olhando pra lá. Quando eu vi era só um braço, sem corpo; aí acordei. São sonhos violentos que tenho. Escrevo porque tenho pesadelos, e também tenho pesadelos porque escrevo. Isso acaba me permeando também, me embrutecendo. Mas não quero escrever só isso, moro ali um tempo."


Não se assuste (ainda), leitor. A história de Edgar Wilson, apesar de permeada pela violência, atrai justamente pelo humor negro, o sarcasmo e a ironia que Ana Paula Maia conseguiu equilibrar em um dos primeiros – talvez o mais bem resolvido – folhetins escritos para a internet brasileira. Faz um ano que Entre rinhas de cachorros e porcos abatidos está no ar, publicado entre janeiro e abril de 2006. Até novembro passado, o folhetim teve 6 mil visitações, maior que a média das tiragens dos livros de ficção no país, em torno de 2 mil exemplares. Nos últimos três meses, teve outras mil visitações.

Agora ela estréia seu segundo folhetim. Barbudos cretinos e suas histórias canalhas – que caminha por um universo vizinho da história anterior, porém, com menos humor negro e ironia – narra a saga de operários e trabalhadores braçais, homens brutalizados, que quebram asfalto, recolhem o lixo e desentopem esgotos.

Autora de O habitante das falhas subterrâneas (7Letras), publicado em 2003, Ana Paula escreveu o segundo romance em 2005. "Depois de finalizado, senti falta de escrever. Terminei de escrever o romance em abril, vai fazer dois anos que o livro está pronto. Nesse período, comecei a escrever o pulp, porque todo esse processo de procurar editora demora muito e precisava escoar a produção. Acabei escolhendo a internet porque é um meio direto e rápido", conta.

E por que o gênero pulp? "Tive uma encomenda de uma editora italiana, Mondadori, que me deu a opção de escrever sobre violência, sexo ou drogas. Preferi escrever sobre violência – estava escrevendo A guerra dos bastardos na época, na metade – e parei para escrever esse conto. Ele acabou entrando na antologia de sexo, porque as outras duas ainda não saíram. A organizadora, Patrizia di Malta, conseguiu vender pro editor, porque tem uma cena de sexo, do cara enrabando o porco. E o cara comprou. O conto se chama "Não se deve meter em porcos que não te pertencem". Escrevi dois contos, o que chamo de episódio. Aí escrevi mais um, e fiquei curiosa para saber o retorno disso aqui no Brasil. Foi quando decidi dividir e fazer o folhetim. Comecei a dividir o material e coloquei na internet. A coisa do pulp acho que veio por causa da Patrizia, quando falou da antologia", lembra.

Há diferenças entre o folhetim e o trabalho feito e pensado para ser impresso. "Para a internet, é um formato mais enxuto. A história pode até ser longa, mas os capítulos são mais enxutos", difere. Algo como um laboratório, talvez? "Olha, não utilizo como laboratório, eu produzo e publico simplesmente pela falta de demanda das editoras para publicar, acabo produzindo mais do que eles dão conta. Acredito na mídia eletrônica como um espaço onde as pessoas ainda vão ler ficção. Já se lê em blogs, daqui a pouco se começa a ler ficção com uma estrutura mais própria, enxuta, para a internet. É difícil colocar um romance imenso, com 200 laudas. Mas gosto do gênero novela – e não vejo muitas pessoas fazendo; fazem contos, crônicas – e acho ideal para isso. Aquela coisa do cotidiano do personagem, sem grandes acontecimentos, situações banais que gosto de descrever. A gente cresceu assistindo a séries, desenhos animados, telenovelas. Isso sempre esteve presente. Mas acho que é um gênero perdido, não sei se os editores aceitam publicar novelas."

A Companhia das Letras vem reeditando as novelas de Sérgio Sant'Anna, lembro à Ana. "Mas só está publicando porque é o Sérgio Sant'Anna, como também fazem com o Fernando Sabino. Agora novos autores, é complicado, tenho visto romances e coletâneas de contos. Para não ficar esperando, pego esse caminho direto, escrevo e jogo no ar", completa.

Só que tem um detalhe: "Sempre deixo alguns capítulos para serem negociados futuramente. Do primeiro folhetim, o final não foi ao ar ainda, tem lá um final temporário". E por que segurou o final? "Segurei porque teve interesse de um editor, para editarmos de modo eletrônico, mas não sei se vai rolar. Se não rolar, vou acabar publicando", explica Ana.

O final guardado de Entre rinhas de cachorros e porcos abatidos trata do dia seguinte da viagem de Edgar Wilson. Essa viagem que o leva para A guerra dos bastardos, a ser lançado em abril próximo pela editora Língua Geral. "Essa é a conexão que existe. Só que o livro não trata do Edgar, ele é um dos personagens. A guerra... não tem protagonistas, mas uns 15 personagens mais evidentes. Edgard é um dos oito que mais aparecem."

E os Barbudos cretinos e suas histórias canalhas? "Estava querendo escrever algo em janeiro deste ano e comecei a pensar em possibilidades de histórias, que tivesse um universo parecido ao do primeiro folhetim, com personagens vizinhos", conta. Ana já tem três capítulos prontos, e vai escrever mais um ou dois. Deve parar, por conta do romance e, depois do lançamento, retoma o trabalho com o folhetim, dividindo sua publicação em temporadas como as de seriados de TV. "Este folhetim novo teve um desdobramento complicado, está maior do que eu esperava. Ele é diferente do primeiro, que tem um humor negro, mais escancarado. Barbudos cretinos... tem uma coisa mais séria, mais pesada. Traz mais essa realidade brutalizante do trabalhador braçal."

Como ela afirma na página principal do folhetim, "Barbudos cretinos e suas histórias canalhas narra a saga de operários e trabalhadores braçais. Homens brutalizados. Que quebram asfalto. Recolhem o lixo e desentopem esgotos. Toda a m**** de trabalho que nenhum de nós quer fazer, eles fazem. E ganham mal por isso".

"A idéia de escrever um pulp é trabalhar com um universo que não olhamos muito, esse tipo que descarrega caminhão, que vira concreto, recolhe lixo, trabalha no esgoto, opera britadeira. Isso vai brutalizando, animalizando. É difícil ver uma lágrima rolar de uma pessoa dessas, não só homens, como também mulheres. Essas pessoas são tão calejadas, é outra realidade, que não está na novela nem na literatura em geral. São personagens muito secos, brutalizados, e o texto também é assim, seco, enxuto, não dá pra ficar divagando muito. São sujeitos que não têm muito tempo para pensar", vai contando.

E de onde surgem, vêm estes bastardos, degenerados, cretinos, abatedores de porcos? "A guerra dos bastardos já é outra coisa. Tem quatro, cinco núcleos, e é um desenrolar. A história toda começa como uma situação, quando o Amadeu, um ator pornô, vai pedir dinheiro emprestado ao chefe dele e, naquele momento, se aproveita de uma situação que acontece naquele segundo, e isso muda a vida de todo mundo. Essa rápida decisão dá origem a história do livro, faz ela existir", adianta Ana Paula, que inspirou-se no visual da nova parceria entre Quentin Tarantino e Robert Rodriguez, Grindhouse, para desenvolver a capa, junto com Rico Lins.

"E bastardos porque não tem ninguém que preste, desde a velhinha até o esquartejador. Todos estão no mesmo patamar. As razões existem, não há uma brutalidade gratuita. Os bandidos são bonitos, falam bem e só matam quando é necessário. Trabalham cobrando dívidas de um agiota. Tem um ator pornô, dois caras que trabalham no cinema, lutador de boxe, personagens do cotidiano", descreve Ana.

E a fixação pelo ator Chuck Norris, que aparece no primeiro folhetim, quando um personagem fala da sua relação afetiva com a fita do Braddock? "Chuck Norris e Charles Bronson povoaram a minha infância. Fui criada com irmão mais velho, e a gente tinha um acordo: como ele também não tinha muitos amigos, me acompanhava nas sessões de filme de terror, que eu tinha medo, e eu era obrigada a acompanhá-lo nas sessões desses filmes do Chuck Norris, Bruce Lee, Charles Bronson. São personagens influenciados por essas figuras que povoam os folhetins."

Há ainda humor negro, acidez, sarcasmo e ironia em seus textos. "Acho que eu sou assim. Eu leio coisas muito diferentes do que estou escrevendo, ensaios, filosofia. Ontem estava lendo Espinosa, coisas que não têm influência direta naquilo que estou escrevendo, podem me trazer uma influência de idéias, de linguagem. Não cresci lendo Rubem Fonseca, nem leio hoje. Acho muito bom, mas li pouco, só dois – Agosto e Feliz ano novo –, e alguns contos esparsos. Li muito mais filosofia, teatro. Os diálogos de Platão, foi lá que aprendi a escrever diálogos. Gosto de Dostoiévski, acho pesado, mas engraçado também, de tão miserável, chego a rir. Os russos têm isso."

Além dessa afinidade, tem o gosto pelos filmes de terror, filmes B, "os piores possíveis", resume. "Fui trazendo isso, e não que me faça bem. Tenho muitos pesadelos e tiro deles algumas idéias – se fosse colocar o pesadelo seria muito pior. Quando estava escrevendo A guerra dos bastardos parei três vezes, estava tendo muitos pesadelos. O último foi que eu estava com o Edgar Wilson, matando junto com ele. Olhei pra minha mão, eu estava de mão dada com alguém e o Edgard na minha frente, olhando pra lá, quando eu vi era só um braço, sem corpo, aí acordei. São sonhos violentos que tenho. Escrevo porque tenho pesadelos, e também tenho pesadelos porque escrevo. Isso acaba me permeando também, me embrutecendo. Mas não quero só escrever isso, moro ali um tempo", acrescenta, antes de mencionar o terceiro livro, que foge um pouco desse cardápio, apesar de carregar outro tipo de violência.

Procurando projetos similares, quase não se acha muita coisa pela rede. "Você conhece algum?", pergunta Ana Paula. O jornal Rascunho, de Curitiba, publicou entre julho de 2005 e agosto de 2006 O inglês do cemitério dos ingleses, de Fernando Monteiro. Desde outubro passado, publica o folhetim Poeira: demônios e maldições, de Nelson Oliveira. O Estado de S. Paulo publicou no segundo semestre de 2006 O purga, de Mario Prata,

Na internet, em blogs, há algumas experiências, como a de Ivana Arruda Leite, que se chamava "Eu não sou a mulher maravilha", e foi sumariamente deletado depois que escreveu o último capítulo. "Está bem guardadinho e talvez se torne um romance no futuro, quem sabe", conta Ivana. E ainda o Batom Borrado, que vem sendo "escrito e reescrito por Clotilde Tavares desde o ano de 1985, baseado em alguns fatos reais, outros tantos imaginários e outros ainda que não se sabe se foram uma coisa ou outra ou – quem sabe – as duas juntas", como conta autora na página do folhetim.

Com os folhetins eletrônicos, o meio de atingir leitores é o ideal, rápido e eficiente. Esperemos por mais histórias que saibam se utilizar do formato.