SOBRE O LIVRO "A GUERRA DOS BASTARDOS", DE ANA PAULA MAIA ---------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------- PERÍODO 2007/2008

Site Aguarras - Junho / 2006

Por Eric Novello

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Ana Paula Maia e a literatura das entranhas

Não espere nada superficial de Ana Paula Maia. A escritora descobriu-se nas entranhas humanas e tem desbravado rins e intestinos desde então. Quando li O habitante das falhas subterrâneas, seu primeiro romance, tive que lidar com a irritação causada por Ariel. Só continuei a enfrentá-lo e virar as páginas porque o personagem imaginava ter um tumor na cabeça. As estranhezas me comovem. Também já achei que tinha um tumor na cabeça, todo maluco já achou. Os seus demais textos também causam essa mistura de repulsa e cumplicidade.

Desde o primeiro romance, Ana Paula participou de antologias de contos e microcontos e mergulhou de cabeça em A guerra dos bastardos. Ela trabalhava no romance quando foi convidada por uma agente italiana a participar de Sex’n’Bossa, um livro de contos eróticos de autores brasileiros. O conto tem o nome sugestivo de Não se deve meter em porcos que não te pertencem e foi seguido de Até os cães devoram os próprios donos com lágrimas nos olhos. Esse foi o berço de Edgar Wilson, um abrutalhado que mata porcos e os leva para frigoríficos. Ele mexe com tripas como quem arruma a casa e não tem pudores de transar com cadáveres suínos.

Ana Paula Maia

O personagem se desenvolveu. Acabou ganhando um folhetim de 12 capítulos publicado na internet sob o nome de Entre rinhas de cachorro e porcos abatidos, uma dessas histórias com cara de HQ adulto com sangue, sexo, e prazer e dor a gosto do freguês. O escrúpulo dos personagens é regido por uma lei própria, limiar à nossa. O matadouro improvisado de Edgar agora é chamado de oficina e seu machado de corte não se incomoda de igualar as tripas humanas às animais. Os guinchos de um porco de costelas expostas têm a mesma dignidade do choro de traidores quando recebem a primeira machadada na orelha.

“Edgar Wilson sofre de um raro tipo de aversão irracional, desproporcional, mórbida e persistente à galinhas. Ele se envergonha muito e guarda isso em segredo.
Pedro segura o porco firmemente, enquanto Edgar Wilson apanha o machado. ‘Não deixe escapulir novamente’, resmunga Edgar, que acende um cigarro, para logo em seguida suspender o machado”. - Entre rinhas de cachorro e porcos abatidos

Procurando mais espaço, Edgar Wilson acabou entrando para o time de A guerra dos bastardos. Quem quiser ter um gosto da história pode ler o conto Teu sangue em meus sapatos engraxados no livro Contos sobre tela ou espiar o folhetim no blog da autora.

“Um suave tilintar de sininhos angelicais permeava à sua volta acompanhado de um forte odor férrico. Ao acordar, uma cavidade rasgada em seu antebraço, os dentinhos cravados na carne até os ossos, lambuzada de sangue morno, os olhinhos brilhando no princípio das trevas; fezes, sangue e saliva dentro da ferida exposta com as veias arrebentadas e corroídas fluindo através da garganta de Rasputin.” - A guerra dos bastardos

Ana Paula diz que o novo romance nada tem a ver com O habitante das falhas subterrâneas, por isso é difícil prever reações e recepção. É uma história longa, que exige dedicação extra para seguir os acontecimentos. Novamente, aposta nos personagens masculinos, os tais bastardos do título. Pelo que pôde ser visto até agora, será um novo mergulho no lado sombrio do ser humano. Sombrio não só porque tudo é possível.